E agora?
Dias tranquilos também causam medo.
Eu sempre imaginei que escreveria um longo texto quando a vida finalmente encontrasse alguma espécie de equilíbrio. Não acho que exista um equilibrio ideal, mas sabe quando tudo está bem? Na vida profissional, emocional e etc. Eu imaginei que saberia extaamente o que fazer e o que dizer quando essa fase chegasse. Como se isso fosse resultado automático dos dias bons.
Mas então descobri uma coisa curiosa - nós, seres humanos, também precisamos aprender a habitar aquilo que sempre desejamos.
Há uma estranheza em encontrar a tranquilidade depois de ter vivido tanto tempo em estado de alerta. Quando o caos foi a língua que aprendemos a falar, a paz chega como uma estrangeira, ela bate à porta, entra, senta-se conosco, mas por algum tempo ainda parece não saber onde ficam os seus lugares dentro da nossa casa.
E então surge uma pergunta: agora que a paz chegou, o que eu faço com ela?
Às vezes, diante do silêncio que sempre desejei, transformo-o em medo, medo de que as coisas finalmente deem certo. Medo de que o futuro que imaginei deixe de ser uma promessa distante e se torne realidade. Medo de perder aquilo que acabei de encontrar. Medo do que consegui realizar. Medo de não dar conta do que está por vir.
É curioso que, por muito tempo, esperei pela paz sem perceber que também precisaria me preparar para recebê-la.
Quando tudo parece estar bem, ainda existem dentro de nós marcas dos lugares onde um dia estivemos. Se tudo está bem, por que ainda sinto isso?
Acho que a paz não é a ausência de tudo aquilo que dói, um estado permanente de pureza emocional, uma linha reta onde nada nos atravessa. Talvez a paz seja justamente a capacidade de acolher a própria humanidade - essa mistura imperfeita de alegria e medo, esperança e insegurança, pertencimento e estranhamento.
A vida não deixa de ser vida quando encontramos a calmaria. O mundo continua sendo um lugar imprevisível, cheio de encontros, despedidas, perdas, descobertas e pequenos abismos. Ainda existirão momentos em que sentiremos vontade de fugir, de nos esconder, de diminuir a nossa própria existência para caber em lugares que parecem grandes demais.
A paz não é uma morada definitiva, ela é uma visita. Às vezes chega, às vezes parte, às vezes retorna quando menos esperamos. Um coração vivo nunca será completamente silencioso. Ele vai celebrar, vai temer, vai se partir, vai recomeçar. Vai carregar a beleza e a ferida de estar no mundo.
Então eu aceito.
Aceito a paz e aceito o caos. Aceito os dias em que o mundo parece acolhedor e aqueles em que ele parece hostil. Aceito a contradição de ser alguém que encontrou a calmaria, mas ainda carrega suas tempestades.
Aceito aprender a existir entre aquilo que permanece e aquilo que muda, entre a luz que chega e as sombras que ainda me acompanham.
Não é isso ser humano?
Obrigada por ler.
Eu estava com saudade de postar aqui, depois de tanto tempo saiu alguma coisa. <3


O Subs não notificou que tinha seus textos novos. Descobri agora esse novo. Como sempre, a sensação de tomar várias porradas no estômago. Acho que é o tipo de escrita que desmonta a guarda e toca em pontos sensíveis.
É aprender a dançar uma dança diferente